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MINHA IRMÃ IRECÊ
VIAGENS DE ANTONIO MIRANDA PELO BRASIL
MINHA IRMÃ IRECÊ
18-05-1993
Minha irmã Irecê é uma mulher inquieta. A mente dela sai na frente do corpo, como no célebre conto de Machado de Assis. Vive sempre projetando-se em situações futuras, sonhando em voz alta, expressando vontades.
As mãos estão sempre trabalhando, mas a imaginação trabalha mais ainda!
Não posso imaginá-la parada. O retrato dela é o de um ser em movimento.
Criativa, esforçada, dinâmica. Está sempre aprendendo alguma coisa útil, prática, que ela possa realizar com as mãos: um croché, tricô, uma nova receita, um adorno.
Tem um fascínio pelas novas tecnologias aplicadas ao lar. Desde que acompanho os seus planos de vida, ela vive experimentando novos e mais sofisticados aparelhos domésticos: batedeiras, ferros de engomar, vídeos, lavadoras, geladeiras, freezers, aparelhos de som, televisões, forno micro-ondas. Agora vive sonhando com a máquina de lavar louça e até com uma antena parabólica.
Se tivesse dinheiro, imagino o que faria!
Tudo ela adquire com extremo sacrifício. Com dinheiro contado. Na época do crédito fácil, vivia a pagar prestações.
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Fotos das cortinas que criou e agora estão expostas na nossa Chácara Irecê (em sua homenagem!) em Goiás.
Ela está sempre fazendo alguma coisa e planejando fazer outras tantas. Cortinas, bolos, enfeites, presentes para as pessoas de sua intimidade e dedicação. Coisas bem feitas, nas quais investe horas e horas, pacientes e intermináveis.
Aproveita as coisas que tem, faz uso devido das coisas que adquire, mas está sempre tentando trocá-las por coisas ainda melhores.
Não é que aspire a coisas sem serventia. Sem valia, jamais. Deseja coisas boas, de boa qualidade. Sabe escolhê-las. Discute com os fornecedores, com os vendedores os mínimos detalhes. E sabe colocar tudo em funcionamento! Com absoluta segurança.
Eu nunca percebi como se usa adequadamente um filtro Europa, ou um fogão. Ela discute as diferenças e as propriedades das diversas marcas. Qual o microondas que gratina e doura? Ela sabe! E já fez cursos pra esgotar as suas potencialidades.
Não vou dizer que é uma consumista pois ela só compra os que é estritamente necessário, embora não seja essencialmente necessário...
Afinal, não é apenas com a “fritex” que se frita com um mínimo de óleo; é possível fazê-lo com outras frigideiras, mas ela vê mais eficiência, mais rapidez, mais praticidade na “Fritex”...
Da mesma maneira que compra, também vende. Está sempre disposta a desfazer-se de algo, se é o caminho para ter algo novo e melhor...Velharias não é com ela.
Eu, ao contrário, só sei comprar. Não sei fazer uso das coisas que compro, não sei conservá-las, consertá-las, nem me ocupo de conservá-las, sem serventia, um verdadeiro cemitério tecnológico; aparelhos de som, telefone sem fio, secretária eletrônica, e até um micro-computador de
8 bites, que já pode ser considerado também um eletro-doméstico...
Como dizia o meu amigo Carlos Alberto, eu sou apenas um PhD, não dá para dominar os teclados de um vídeo-cassete...
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